Émilho!

O milho nos festejos juninos.

Bom, provavelmente todos vocês devem estar esperando ansiosamente pelo nosso querido e tradicional São João. Mesmo aqueles que não curtem muito um forrozinho, – como eu – mas a gente sempre espera uma folguinha a mais, um feriado estendido e, é claro, um belo cardápio cheio de comidas típicas.

É uma infinidade de delicias que são servidas nos festejos juninos, comidas feitas com matérias primas plantadas nas roças e feitas artesanalmente, pelo menos as que valem a pena comer. Do amendoim temos o pé de moleque, a paçoca, o próprio amendoim cozido ou torrado, entre outros doces. E são eles, os doces, os convidados de honra desses festejos, maçã do amor, doce de abóbora, cocada, bolo de aipim… oh meu Deus! Só de escrever essa lista fico com água na boca. Além das diversas bebidas, temos o famoso quentão e os licores de vários sabores.

Mas o grande anfitrião das noites de festejos juninos com certeza é o milho. É desse grão, típico das Américas, que são feitos os mais deliciosos quitutes – na minha humilde opinião – e também a maior quantidade diferenciada de pratos. Não podemos pensar em São João sem lembrarmo-nos do bolo de fubá, da canjica, do curau, da pipoca… A maioria dos pratos típicos servidos nas festas juninas, nasceram das mãos dos escravos, que junto com um milho que os portugueses acreditavam ser de segunda classe, chamado sorgo, foram incorporando outros ingredientes (como o leite de coco) e deram origem a pratos como o angu, a canjica, o cuscuz, o mungunzá, a pamonha. Cada um desses pratos tem sua história, podendo mudar de nome e um ou outro ingrediente, dependendo da região do Brasil. 

Angu tem origem na receita do “infundi” africano – por lá feito com caldo de peixe ou miúdos de boi, e engrossado com farinha de sorgo. Aqui passou a usar só leite de coco, farinha de milho, sal ou açúcar – que, desde aqueles tempos, o prato era indiferentemente salgado ou doce. A palavra vem do tupi “angau”.

Mungunzá vem do africano “mu’kunza” (milho cozido) – um prato que, por ter sustança, era sempre servido às pessoas que passavam a noite velando enterros. Essa espécie de sopa doce se faz com milho branco cozido em água, leite de coco, açúcar, erva-doce, e mais canela ou cravo. No sul do Brasil, é mais conhecido por canjica.

Já a verdadeira Canjica nordestina (do africano “kanjica”) é mistura de milho não muito verde, leite de coco, sal, açúcar e manteiga. O creme grosso é colocado em travessa e polvilhado de canela – uma técnica portuguesa. No sul, em curiosa dança de troca de nomes, essa canjica é conhecida por “curau”.

Pamonha vem do “pamuña” indígena. Mas os escravos transformaram esse creme grosso e sem graça em prato muito especial. Juntando leite de coco, açúcar e sal. E assando esse creme em folhas de bananeira. Depois foi sendo aperfeiçoado, passando a ser cozido na palha do próprio milho. Esse é o meu prato favorito, mas eu gosto mesmo da pamonha mineira, com queijo ou linguiça, temperada com pimenta e sal, mas também tem outros sabores, inclusive a de doce.

Já o cuscuz tem origem moura, sendo bem conhecido de portugueses e africanos, em suas terras. Aqui foi tomando nosso jeito. Da receita original, conservamos só o modo de cozinhar no vapor. Farinha de sorgo ou de arroz, substituímos por farinha de milho. Juntamos leite de coco e açúcar. O prato enraizou-se tanto em nossa cultura, que é, ainda hoje, prato obrigatório em todas as mesas nordestinas. E foi assim que, aos poucos, esse milho acabou sendo apreciado também pelo colonizador. Sobretudo quando perceberam que, diferente do sorgo, era mais macio, mais doce e muitíssimo mais saboroso. Só então passaram a desenvolver suas técnicas de plantio. Preferencialmente semeando no dia de São José (19 de março), quando quase sempre chove. O que permite que esteja no ponto de ser “quebrado”, às vésperas do dia de outro santo importante – São João. Ou de São Pedro, primeiro papa da Igreja. Período em que, segundo a tradição, também sempre chove. Culinária e religião juntas, na alma e na boca do povo brasileiro.

Esse ano o Nordeste sofreu uma forte seca, afetando em muitos aspectos os festejos de São João. É triste saber que, uma festa sinônimo de fartura, esse ano não será comemorada com a alegria tradicional. Esperamos que nesse São João a esperança se renove, e que todas as famílias que estão passando por dificuldades devido à seca possam superar esse período ruim. Já que o governo parece ser indiferente a esse caso, o que essas pessoas podem mesmo fazer, é pedir a ajuda desse santo tão reverenciado pelos brasileiros e principalmente pelos sertanejos.

FELIZ SÃO JOÃO!!

Divirtam-se, e não exagerem na comilança. Ah, e nem na bebida.

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Stomp

O segundo post musical do blog traz um grupo incrível que conheci recentemente. O Stomp é um dos mais conhecidos e importantes grupos de percussão do mundo, criado por Cresswell e Steve McNicholas, o grupo nasceu na Inglaterra em 1991 na cidade de Brighton. A palavra stomp significa em inglês, batida de pés ou dança com passos duros, e é com muita energia que os integrantes do grupo Stomp apresentam-se em empolgantes espetáculos que mistura muita música, teatro e dança.

Não importa seu gosto musical, cabe tudo e um pouco mais nas apresentações do Stomp, jazz, dança clássica, pop, etc. O grupo utiliza dos materiais mais inusitados para extrair seu som, vassouras, latões de lixo, galões de água, blocos de construção, tampas de panelas, caixas de fósforos, realmente é uma infinidade de instrumentos, além da expressão corporal de exímios bailarinos que se expressam de maneira singular e surpreendentes.

Assista ao vídeo de uma apresentação do Stomp:

Atualmente, existem quatro elencos do Stomp, sendo dois na Inglaterra (um fixo e um para turnês mundiais) e dois nos Estados Unidos, seguindo a mesma filosofia. E é em Nova York no grupo fixo que o brasileiro Marivaldo dos Santos trabalha desde 1996. Compositor, músico percussionista e produtor, esse baiano de 40 anos consolidou sua carreira no exterior com muito ritmo e talento.

O percussionista Marivaldo dos Santos em cena no Stomp.

Nascido em Salvador, Marivaldo dos Santos começou cedo a se interessar pela música, frequentava a escola de samba Diplomatas de Amaralina, uma das primeiras de Salvador e que foi fundada por seus pais. Mais tarde integrou a companhia da irmã e coreógrafa, Rosângela Silvestre, mas a paixão pela percussão o levou para outros caminhos. “Gostava do que fazia, mas não sabia se era exatamente aquilo que queria seguir. Na verdade, dançava, mas meu coração batia no compasso da percussão”, revela.

Apesar de ser integrante do grupo fixo de Nova York, Marivaldo sempre viaja com o Stomp em suas apresentações pela América Latina. E agora suas vindas a Salvador vão ser cada vez mais frequentes, tudo por causa do seu projeto: o Quabales.

O Quabales é um projeto socioeducativo que está sendo desenvolvido em parceria com o Stomp por meio de oficinas de percussão e expressão corporal em Nordeste de Amaralina, bairro da periferia da capital baiana, onde Marivaldo nasceu e cresceu. “Era um sonho que eu tinha ha muito tempo, e certamente muitos desses jovens que estão participando nunca viram algo como o Stomp, que tem essa coisa do movimento, com o som e o teatro. O projeto está começando aqui e espero que se expanda Brasil afora. Vai servir para formar não só futuros artistas, quem sabe até novos integrantes do Stomp, mas também para outras áreas das artes como técnicos de som, iluminadores etc.”, revela Marivaldo em uma entrevista ao jornal Estado de Minas. (Leiam mais da entrevista aqui, e também ao vídeo introdutório do documentário sobre o projeto Quabales.)

Marivaldo atuando no Quabales

As oficinas são ministradas por percussionistas e dançarinos capacitados, além de integrantes e ex-integrantes do Stomp. Podemos esperar o surgimento de grandes artistas  vindos do Quabales. E o blog Trancilim continuará torcendo e acompanhando esse belo projeto.

Conheça também o site do projeto Quabales.

O “Shake” musical da Banda Uó

A novela Cheias de Charme exibida pela Rede Globo, chama atenção para um movimento que vem crescendo cada vez mais no Brasil, o Tecnobrega.  O tecnobrega, em termos gerais, é um gênero que descende de uma seleção de elementos nascidos de variações da música eletrônica combinados com elementos de diversas referências musicais cultivadas no Brasil e que, aos poucos, foi ganhando um padrão próprio em Belém, sob o nome de brega.

É esse ritmo bem brasileiro que move um trio vindo de Goiânia, a Banda Uó, que aos poucos vem conquistando seu espaço no cenário pop nacional. Creio que muitos já ouviram falar desse grupo formado por David Sabbag, Mel e Mateus Carrilho, eles já participaram de alguns programas na TV, como o programa Esquenta da Rede Globo, apresentado pela Regina Casé nas tardes de domingo durante o verão, e também foram destaques na apresentação da premiação de música brasileira, o VMB de 2011, promovido pela MTV, onde ganharam o prêmio de Webclip com o vídeo que emplacou a banda no cenário musical brasileiro, Shake de Amor”.

Banda Uó

Tudo começou quando Mateus Carrilho resolveu gravar um vídeo com uma versão brega da música Teenage Dream, da Katy Perry, que na versão dos goianos ganhou o nome “Não Quero Saber”, para a divulgação de uma festa. A banda fez outras versões de músicas gringas, sempre divertidíssimas com clipes muito estilosos, como o da música O Gosto Amargo do Perfume (vídeo que eu mais gosto! J), versão da música Something Good Can Work do Two Door Cinema Club. Assistam o vídeo dessa música – ah, e reparem no figurino, é DEMAIS!!

“Sempre gostamos de fazer paródia. E foi assim que ‘Shake’ nasceu. Estávamos ouvindo música no carro e começamos a inventar. Aí chegamos nessa história de uma mulher que foi enganada e quer se vingar”, conta Mateus, sobre o nascimento da música. Ele também dirigiu e fez o roteiro do vídeo. “Fizemos tudo no truque, não gastamos nem 500 reais”, relembra.

O folclore do Maranhão em lindas estampas, por Victor Dzenk.

Procurando por mais informações sobre o tecido de chita para um novo post, acabei encontrando em alguns blogs um estilista mineiro talentosíssimo. Victor Dzenk é o criador da coleção Chita is Back que homenageia o estado do Maranhão e seu folclore, tudo com muito estilo em belíssimas roupas coloridas e cheias de brilho. A coleção foi apresentada na Fashion Business no Rio de Janeiro, no dia 13 de janeiro desse ano. Dzenk disse que “a ideia foi fazer do folclore uma realidade usável”. Confiram alguns dos figurinos da coleção Chita is Back:

Estampas “Bumba”:

Estampas inspiradas na Chita:

Bordados:

Obs: Esse é o meu favorito. Lindo!!

Link, para mais informações sobre Victor Dzenk.

Xilogravuras

Esse post fala um pouco da história da xilogravura – arte que particularmente acho fascinante. Espero que gostem, e por favor, comentem.

A palavra xilogravura vem do grego, é formada por duas palavras, xilon que significa madeira e grafo que significa gravar. Trata-se de gravuras entalhadas em madeira e utilizadas como um carimbo de impressão.

A xilogravura é uma arte antiga, mas não existem registros de  seu autor nem da data de sua criação. “A xilografia em papel mais antiga, dentre as que se conhece, ilustra um exemplar da oração budista Sutra Diamante, editada por Wong Chieg, na China, no ano 868”, destaca Antonio Fernando Costella, diretor do Museu da Xilogravura.

“Sutra do Diamante” Oração budista impressa em xilogravura na China, em 868

Essa arte foi muito comum como modo de impressão de livros, entre outros tipos de publicações durante muitos anos. A criação de desenhos em alta definição foi uma técnica chamada de xilogravura de topo, criada por Thomas Bewick, um importante gravador inglês que viveu entre o final do século XVIII e início do XIX. Thomas Bewick conquistou em 1775 o prêmio de gravura da Sociedade de Arte de Londres, e a xilogravura de topo foi largamente utilizada durante um século, quando perdeu seu espaço para o clichê metálico.

Algumas gravuras de Thomas Bewick:

Ilustração de Bewick para a fábula de O pescador e o peixinho

À margem dessa arte erudita vinda da Europa, no Brasil, a xilogravura tornou-se característica da literatura sertaneja nordestina, ilustrando as histórias cantadas em repentes, criando assim a literatura de cordel. A xilogravura brasileira completou cem anos em 2007, ano em que foi inaugurada a Exposição 100 Anos da Literatura de Cordel em Brasília, no Anexo do Palácio do Planalto.

A primeira aparição da xilogravura na Literatura de Cordel foi em 1907, nos cordéis de Leandro Gomes de Barros e Francisco Chagas Batista narrando as aventuras do cangaceiro Antônio Silvino e depois de seu sucessor, Lampião.   Em seu desabrochar como arte, a xilogravura se apresenta como a mais rica e instigante expressão plástica da cultura rural brasileira. (Saiba mais no site da exposição. link)

Abaixo seguem alguns desenhos de xilogravuras brasileiras:

O cavalo que defecava dinheiro, de Leandro Gomes de Barros
acabou se transformando no “gato que descomia dinheiro”
da peça de Suassuna. (Desenho: Klévisson Viana)

Xilogravura de Stênio retirada de capa de folheto de Cordel: ‘A chegada de Lampião no Inferno’. (Coleção do autor).

 

 Quem inventou esse “S” 
  Com que se escreve saudade 
    Foi o mesmo que inventou 
      O “F” da falsidade 
        E o mesmo que fez o “I” 
           Da minha infelicidade 

Arte de Sombras

Seguindo a linha das artes sustentáveis, encontrei por recomendação de uma amiga, dois escultores ingleses que fazem um trabalho incrível e diferente. As esculturas de Tim Noble e Sue Webster consistem em um punhado de lixo, juntados de forma aparentemente aleatória, mas quando a luz é projetada forma sombras que são verdadeiras obras de arte. Confiram um pouco desse elogiado trabalho que foi incluído na exposição “Apocalipse: a beleza e o horror”, realizada na Academia Real de Arte Contemporânea.

Arte Reluzente: o artesanato em Capim Dourado

Syngonanthus nitens euriocaulaceae, esse nome comprido e estranho, é o nome científico da planta Capim Dourado, que vem nos últimos anos atraindo a atenção de muitas pessoas devido a sua beleza reluzente. A syngonanthus nitens, que em latim significa brilho, nasce nas veredas do Jalapão – região conhecida nacional e internacionalmente por suas belezas naturais – localizado no leste do estado do Tocantins. O Capim Dourado é utilizado na fabricação de várias peças artesanais produzidas pelas comunidades próximas a essa região.

O artesanato em capim dourado surgiu no povoado de Mumbuca, localizado a 35km do município de Mateiros que contém menos de 200 habitantes. Esse povoado é formado por descendentes de escravos e índios. Ao chegarem nessa região, esses descendentes de escravos – vindos da Bahia – em contato com os índios que já viviam na região, aprenderam o artesanato feito com o capim dourado para a fabricação de cestos, bolsas, chapéus entre outros utensílios que eram costurados com a fibra do buriti – palmeira comum na região.

Os objetos feitos com o capim dourado chama a atenção pela cor reluzente desse capim, cor de ouro. Foi graças à matriarca da comunidade, Dona Miúda, que decidiu vender alguns objetos feitos por ela nas cidades próximas, que essa arte pode ser vista e admirada fora da comunidade de Mumbuca, e com a ajuda do crescente turismo na região as peças feitas com o capim dourado tornaram-se conhecidas em todo Brasil e também e também no exterior.

Os artesões utilizam dois tipos de capim chamando-os o de primeira e de o de segunda, o de primeira é mais grosso, sendo utilizado na fabricação de peças maiores e mais resistentes, e o de segunda é mais fino e maleável, servindo na confecção de peças menores e mais delicadas, como as bijuterias.

Devido ao sucesso das peças feitas com o capim, o governo do estado do Tocantins criou em parceria com a comunidade de Mumbuca incentivos para a produção do artesanato em uma escala maior, fazendo com que outras comunidades e cidades próximas ao Jalapão também se interessasse pela produção das peças. Mas o crescente interesse por essa produção vem causando preocupações referentes à preservação dessa planta. A colheita é feita somente uma vez por ano, entre os períodos de agosto e outubro, se feita fora do período ou incorretamente, a planta pode ser arrancada pela raiz, impedindo sua germinação no ano seguinte.

Para evitar os possíveis transtornos causados por pessoas que não estão habituadas ao manejo do capim dourado, “a Associação Capim Dourado do Povoado de Mumbuca solicitou ao Ibama em 2001 que desenvolvesse pesquisas sobre o manejo e a conservação da espécie. As pesquisas foram iniciadas em 2002, com apoio do Ibama e parceria da ONG Pesquisa e Conservação do Cerrado – Pequi, Embrapa/Cenargem, Universidade de Brasília e o Programa de Pequenos Projetos – PPP/GEF/PNUD, além da própria Naturantins.” (Capim dourado: costuras e trançados do Jalapão. p.19)

O artesanato de capim dourado vem sendo cada vez mais propagado pelo Brasil e pelo mundo, ganhando destaque até na televisão, como foi no caso da novela global Araguaia, exibida no final de 2010 e início de 2011, onde foram mostradas peças criadas pela designer Meire Bonadio. Incentivando o uso consciente e sustentável do capim.

As peças feitas com o capim dourado podem ser encontradas em várias lojas de bijuterias e artigos artesanais ou nos sites de vendas das próprias comunidades produtoras, como o site feito pela associação de artesãos de Ponte Alta,(link) cidade que é conhecida como portal do Jalapão.

Não é à toa que esse artesanato chama tanta atenção, o efeito de ouro produzido pela cor do capim dourado é muito belo, existe cerca de 50 produtos diferentes, como bolsas, carteiras, sandálias, mandalas, etc, todas lindas e reluzentes.